Gostaria de agradecer imensamente a oportunidade que me deram de participar desta missão que tenho certeza que, mesmo quando estiver bem velhinha, ainda estarei tirando lições e me lembrando do tempo precioso que foi este.
Muitas são as histórias e eu antes de vir ficava lendo as experiências das pessoas e pensando como me comportaria e reagiria frente a tanta dor. Cada um tem a sua impressão, eis a minha:
A preparação foi muito corrida, por isso, não tive tempo de pensar em muita coisa não, mas a minha preocupação e dúvida eram se conseguiria em 15 dias perder: meu banho de 30 minutos pela manhã e à noite, e quente, meu “frango” do almoço no HIAE (rs), ficar tão longe dos meus queridos (porque aqui é mais longe do que a cidade do Shrek (Far Far Away), suportar o calor que diziam que era insuportável e conviver com a diversidade de idiomas.
Bom, em primeiro lugar, tenho que parabenizar as equipes anteriores porque o trabalho deles foi fantástico. Temos uma estrutura tão admirável que o impacto disto é imenso aqui no campo. O “dono do negócio” está sempre na nossa tenda!!! Temos água gelada, o que nos mantêm hidratados a todo tempo, a comida é ótima, apesar da aparência, os banheiros, uma das minhas preocupações, agora é dividido masculino e feminino, e tem uma cortina, individualizando cada um. O banho gelado é uma recompensa depois de um dia de trabalho e pra quem tiver disposição, pode até tomar mais de um!!
A terceira equipe foi muito esperada porque com o passar dos dias, o sobe desce (anda muito, viu? este é um verdadeiro SPA), o calor e a exposição emocional, começam a dar sinais de cansaço, como pudemos presenciar da equipe anterior.
Estava sendo muito esperada aqui porque com a desidratação e as características da pele dos pacientes, as veias são muito difíceis de serem puncionadas. No nosso primeiro plantão noturno (sábado), pude comprovar. Tenho uma passagem de PICC agendada, porém, o cateter não chegou. Mas, estou a todo vapor nos curativos. Com o calor que faz aqui, temos trocados os curativos todos os dias e temos tido uma evolução muito grande nas feridas. Estamos tirando fotos e vendo os resultados a cada dia. Dr. Pavão, realmente nossa equipe é fantástica. Todos trabalham muito, sempre um dos médicos nos acompanham nos curativos. No primeiro dia, atendemos pacientes até às 24h. No segundo, começamos os curativos às 8h e terminamos às 18h. A temperatura dentro da barraca é de 50 graus.
As pessoas são muito fortes em relação à dor. Imagine fazer um curativo enorme de uma deiscência ou tirar pontos de uma criança de 6 anos e ela simplesmente sorrir. É inacreditável! Ficamos emocionados.
Ontem, durante um curativo, a Roza se emocionou muito quando um garoto que permaneceu durante três dias ficou com o pai andando com o corpo da mãe, procurando um lugar para enterrar, a chamou e pediu: Me dá um abraço? Ela o abraçou e ele começou a chorar. É muita emoção!
Agora temos conhecido os pacientes e assim estamos nos organizando e administrando melhor o tempo para outras atividades. Hoje até joguei futebol com os meninos. Eles disseram que sou prima da Marta! As pessoas nos têm passado uma lição de vida enorme. Elas crêem que estão vivas porque Deus (o mesmo que o Dov leu no meu cordão, lembra?) teve misericórdia e as livrou da morte, independente se hoje estão mutiladas ou não. Simplesmente ESTÃO VIVAS! E vejo que não estão tristes porque não tem um braço ou uma perna, se ficam tristes, é porque sentem falta dos seus familiares que perderam na tragédia.
Outro dia fomos tirar uma foto e alguém cobriu o membro amputado de uma menina com um lenço. No momento da foto, ela pegou o lenço e amarrou na cabeça para se enfeitar pra foto. Está pouco se importando com o coto, agora ela é assim!
Os pacientes se apegaram muito às equipes anteriores e vejo que alguns já se armam em relação às emoções de mais uma perda. Ontem, uma garota veio conversar comigo. Ela é muito linda, sorridente, carismática e está sendo minha professora de creol nas horas vagas. Ela estava triste e eu perguntei o porquê. Ela respondeu: já perdi minha família, agora em poucos dias perdi a Marcela, a Melissa, a Silvia, a Teresa e logo vou perder você. Me leva para o Brasil? As pessoas que eu amo agora estão lá! Esta é a diferença que estamos fazendo por aqui.
Ontem fui com o Jorge no culto à noite (convidados pela garota acima) e foi extraordinário! Depois vocês verão as fotos e quem quiser também um filme. A princípio, a cena era chocante: muletas e cadeiras de roda por toda a parte, mas a maneira como eles dançam e cantam e agradecem a Deus por estarem vivos é de arrepiar!! Uma menina com uma voz lindíssima, amputada de um braço e uma perna, cantava sobre a enorme força recebida de Deus e o agradecia por estar viva! Foi demais!
Bom, comecei a escrever este texto ainda estava escuro e o dia amanheceu e nem percebi. Mandarei mais notícias em breve. Mas não se esqueçam que o que fizeram por mim, me deixando participar desta missão, nunca vou me esquecer.
Claudia Luz
A enfermeira mais feliz do Haiti!!
Deixe um comentário
Caracteres restantes:
500
Aviso: todo e qualquer comentário publicado na internet por meio deste sistema não reflete, obrigatoriamente, a opinião deste portal ou da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Hospital Albert Einstein. Os textos publicados são de exclusiva, integral responsabilidade e autoria dos leitores que dele fizerem uso. O Hospital Israelita Albert Einstein reserva-se, desde já, o direito de excluir comentários e textos que julgar ofensivos, difamatórios, caluniosos, preconceituosos ou, de alguma forma, prejudiciais a terceiros. Informamos ainda que poderá haver moderação dos comentários que apresentarem dados clínicos ou pessoais dos autores, visando garantir a privacidade destas informações. Textos de caráter promocional ou inseridos no sistema sem a devida identificação (nome e endereço válido de email) também poderão ser excluídos.