Última noite em Fond Parisien – Haiti. Que pena! Foi e está sendo uma experiência inusitada. Algo sem comparação que, com certeza, fará parte da vida de todos que dela participaram.
Desde momentos de extrema compaixão, momentos de alegria, tristeza, além daquela emoção de fazer parte de uma Missão de Ajuda Humanitária com uma estrutura incomparável, conforme as circunstâncias locais. Um trabalho em grupo, em que cada um cumpre seu papel da forma que considera possível, chegando ao limite de sua capacidade. E você sabe, limite cada um tem o seu! Cabe ao próximo saber respeitá-lo. Um trabalho que começou muito pesado. Uma situação difícil de ser considerada normal. Não é normal!!!
Um campo aberto, coberto por barracas enfileiradas, onde em cada uma encontramos por vezes 3 ou 4 pacientes, normalmente graves, acompanhados por seus familiares. Pessoas amputadas, com fixadores externos, cadeiras de rodas, muitos de muletas. Uma condição que beira o limite da possibilidade de sobrevivência. Mas lá estão eles, esperando por sua ajuda, por seu conhecimento técnico, ou apenas por uma graça ou um sorriso.
É muito gratificante atendê-los, tentando falar seu idioma (creolo), ou chamar um tradutor local com quem você se comunica em inglês, espanhol ou até num francês dos mais “macarrônicos” e incompreensíveis.
Como ortopedista, não faltou trabalho. Éramos em 3 quando cheguei, no dia seguinte 2. Cerca de 250 pacientes para serem avaliados. Lógico, nem todos ortopédicos, apenas uns 60% deles! Nos dividíamos pelas fileiras, que não acabavam! No segundo dia, aquela sensação de impotência, de incapacidade de fazer tudo, de organizar o campo. Difícil!
Em 4 ortopedistas e apoiados pela Operação Smile, as cirurgias aconteciam na medida do bom senso e da capacidade local: uma Medicina de Guerra! Muitas reuniões e discussões de casos.
Foi marcante atingir um controle relativo da situação. Relativo, pois após 6 semanas do acontecimento, já não se tratavam muitas vezes de fraturas, mas de suas seqüelas. Tudo sendo feito com muita disposição e boa vontade! Era um trabalho árduo, difícil, cansativo, mas com uma incrível recompensa pessoal. Afinal, estamos aqui para ajudá-los, e que seja até nosso limite.
Na despedida, muita emoção. Pessoas gratas pelo esforço e dedicação. Abraços de pessoas que talvez nunca mais veja. Crianças que agarravam e pediam para ficar. Outros enxugavam minhas lágrimas dizendo que nunca iriam me esquecer (nem eu). Pediam a bênção de Deus!
Como posso sair daqui sem dizer que valeu a pena! E como valeu...!
Haiti e você, tudo a ver!
Dr. Fabio Racy
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