Depois do fracasso das negociações da COP15, a Conferência do Clima de Copenhague, o único consenso foi que o aquecimento global não pode ultrapassar os 2 °C, de acordo com as previsões do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), adotadas como base para as discussões. Esse aumento já trará impacto como a elevação do nível do mar, mas se a temperatura subir mais que isso os danos para o planeta e, consequentemente, para a população serão grandes.
A previsão mínima para os próximos 100 anos é mais que o dobro do aumento de 0,6 °C, ocorrido desde 1900. Pode parecer muito tempo, mas é preciso lembrar que esse acréscimo é gradual e alguns efeitos do aquecimento global já podem ser sentidos, como as ondas de calor e de frio intensos em diversas partes do mundo.
Os cenários previstos pelo grupo de cientistas do IPCC relacionam o aumento de doenças em escala global às mudanças climáticas, embora o estágio atual tenha pouco impacto. As cardiorrespiratórias, por exemplo, estão listadas no relatório.
Além do IPCC, há outras entidades debruçadas sobre os efeitos do aquecimento global. A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), por meio do documento “Mudanças Climáticas e Ambientais e seus Efeitos na Saúde: Cenários e Incertezas para o Brasil”, aponta as doenças transmitidas por vetores, como malária e dengue, mais frequentes nos países de clima tropical, como um dos principais problemas de saúde pública que podem decorrer do aquecimento global.
Só em São Paulo morrem, a cada ano, 4 mil pessoas em decorrência de problemas relacionados à poluição do ar
Os processos biológicos não têm capacidade de acompanhar o rápido aquecimento pelo qual a Terra está passando. As entidades que se dedicam a pesquisar seus efeitos trabalham com previsões e estimativas. “Não se sabe como a própria vida vai responder”, disse Carlos Nobre, pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas Espacias (Inpe), na Conferência Doutores do Ambiente, promovida pela Associação Médica Brasileira em novembro de 2009. O pesquisador se referia ao meio ambiente como um todo, incluindo os seres humanos.
Meio ambiente e saúde
As discussões da COP15 giraram em torno da diminuição do impacto das mudanças climáticas, do ponto de vista político e econômico. Pouco se falou sobre a saúde. Para o professor doutor Paulo Hilário Nascimento Saldiva, do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da USP, o custo de tirar o homem da agenda ambiental é alto.
O médico levanta uma questão de saúde pública que fica ainda mais exposta nas grandes cidades: a poluição atmosférica, causada pelo uso de combustíveis fósseis, como carvão e petróleo. “Só em São Paulo morrem, a cada ano, 4 mil pessoas em decorrência de problemas relacionados à poluição do ar”, afirma o médico.
Dados da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) mostram que a capital paulista é a área com maior concentração de ozônio, um dos gases do efeito estufa, em todo o país. Dos poluentes gasosos, 90% são originados a partir da queima de combustíveis fósseis nos veículos.
Mudança de atitude
“Ainda está em tempo de diminuir os riscos”, defende Nobre. Para o pesquisador é preciso, sobretudo, firmar acordos para manter estabilizada a quantidade de gases do efeito estufa emitida, anualmente, em todo o mundo. Mas essa estabilização extrapola as esferas governamental e empresarial.
Atitudes individuais têm grande impacto na diminuição das mudanças climáticas. Deixar o carro em casa ou pegar carona, sempre que possível, pode ser o primeiro passo. Praticar o consumo consciente também é uma das alternativas propostas pelos especialistas. Enfim, se cada um fizer a sua parte, as chances de garantir a saúde do planeta e de seus habitantes são maiores.
Publicada em março/2010