Uso inapropriado pode gerar mudanças graves no comportamento e na saúde do indivíduo.

Medo, tristeza, raiva, ansiedade. Quando um desses sentimentos – ou uma combinação deles – predomina, muita gente acaba tomando uma atitude arriscada para a saúde: tomar calmantes sem indicação médica.
O uso desses medicamentos realmente pode ser o tratamento ideal, mas é preciso ter cuidado. Sem a prescrição médica adequada, os tranquilizantes podem oferecer risco à saúde e até piorar a situação do indivíduo.
“Quando bem indicados, esses medicamentos atuam de modo muito útil, suavizando os sintomas de ansiedade e possibilitando ao paciente encarar situações com mais realismo e a reagir de modo mais maduro e eficaz. Mal indicados, podem ser inúteis e até prejudiciais. Quem deve tomar tranquilizantes, quanto, quando, qual, como e para quê, são respostas que só devem ser dadas pelo médico que atende o paciente”, afirma o psiquiatra do Einstein, Dr. Mauro Moore Madureira.
Falsos médicos de plantão
Quando o indivíduo se sente mal, psicológica ou emocionalmente, e procura um especialista, sua chance de melhorar é mais efetiva e mais rápida. Quando sai pedindo conselhos para as pessoas que conhece, pode ouvir respostas muitos distantes de sua necessidade. “Só mesmo o médico, que estudou muito e que praticou seu ofício durante anos, deve ser quem decide”, afirma o psiquiatra.
Reações desproporcionais
Frente aos desafios impostos pela vida, a diferença entre as pessoas que têm reações saudáveis e aquelas que têm reação geralmente neurótica pode ser explicada pelo critério da proporcionalidade.
“Quando a emoção sentida é proporcional ao que está acontecendo de fato na vida do indivíduo, não há doença. São quadros transitórios e a medicação tranquilizante vai ser usada por curto período de tempo”, afirma o médico.
“O tratamento se impõe quando a emoção é desproporcional ao fato que a desencadeou ou quando ela permanece por tempo excessivo”, explica.
Cada caso deve ser tratado de forma individual, pois a diferença entre o saudável e o patológico nem sempre é clara. Fatos estressantes provocam nas pessoas reações bastante diferentes.
“Expor-se ao público, estar em ambiente hospitalar, ver sangue, ficar só ou em ambientes fechados, viajar de avião, fazer exames, ser criticado, entre outras situações, provocam reações que podem ir desde a mais serena naturalidade até o pavor e o pânico paralisantes. Só um profissional pode entender as nuances de comportamento de um indivíduo e indicar a medicação mais adequada.”
Angústia e ansiedade
Na situação de angústia intensa o sofrimento é fortíssimo, impedindo a pessoa de raciocinar e de acalmar-se por si própria. Neste caso, o medicamento calmante suaviza o sentimento inadequado, possibilitando que a pessoa passe gradualmente a usar o próprio bom senso e a encarar a situação com realismo.
Já a ansiedade permanente, desproporcional à realidade, geralmente é decorrência lógica de uma visão pessimista de tudo e de todos.
“Pessoas com interpretação realista podem ver um lagarto, enquanto um otimista vê apenas uma lagartixa e o pessimista, um jacaré”, metaforiza o médico.
“Cada uma destas visões vai despertar um tipo de emoção e determinará uma ação correspondente. A psicoterapia, auxiliada por tranquilizantes e antidepressivos, desenvolve a capacidade de fazer avaliações mais adultas e mais realistas”, avalia.
Medicamentos x Terapia
Os calmantes devem ser vistos como analgésicos, que diminuem a dor, mas não curam a doença. Seu uso deve ser o início do tratamento do quadro ansioso ou depressivo, mas o verdadeiro tratamento para quase todos os casos é a psicoterapia, que busca o desenvolvimento de uma avaliação mais exata de si e do mundo.
Tranquilizantes viciam?
As pessoas que se viciam aos tranquilizantes são candidatos mais fortes a se viciarem intensamente a outras drogas mais perigosas. “Naturalmente, o médico agirá de maneira prudente, de forma a minimizar esse risco”, afirma o Dr. Madureira.
“Com o uso de alguns desses medicamentos há o fenômeno da tolerância, que faz com que, para obter o efeito desejado, sejam necessárias doses gradualmente maiores. Mas na prática diária esses casos são bastante raros”, diz.
“Muitas pessoas perdem um tempo precioso usando apenas ‘analgésicos emocionais’, mas não fazem o tratamento necessário para o amadurecimento da sua personalidade”, avalia o psiquiatra do Einstein.
Insônia
O uso de calmantes contra a insônia é bastante comum. Quando bem indicados, os tranquilizantes e os antidepressivos podem ser muito úteis para a regularização do horário e a melhora da qualidade do sono.
A orientação médica deve definir sempre, para cada pessoa, qual medicamento, em que dose e durante quanto tempo deve ser feito o tratamento.
Riscos
“Tomar calmantes ou antidepressivos sem prescrição médica pode acarretar alterações importantes na personalidade, gerando atitudes muito inadequadas e até perigosas”, afirma o psiquiatra.
“É mais seguro tomar um avião pilotado por um bom comandante. Ou você viajaria num avião pilotado por um curioso?”, pergunta.
Publicado em março/2011