Nutrição

Você ataca a geladeira à noite? Pode ser um sinal de transtorno alimentar

Apareceram restos de comida no seu quarto e você não sabe como? Costuma acordar cansado, não sente fome pela manhã e vive irritado com tudo? Cuidado, você pode ser vítima de um transtorno alimentar.

Você ataca a geladeira à noite? Pode ser um sinal de transtorno alimentar

É quase como um impulso, quando se dá conta, a pessoa já está em frente à geladeira procurando alguma coisa bem gostosa e calórica para devorar. E isso quase todos os dias, principalmente tarde da noite.

Esse ato, geralmente consciente, faz o indivíduo ficar acordado durante a madrugada comendo tudo o que vê pela frente. Mas também existem relatos de pessoas que não se lembram de nada e que só se dão conta do que fizeram quando acordam com pratos de comida em cima da cama.

A Síndrome Alimentar Noturna - SAN, que também pode ser chamada de Parassonia, é um comportamento ou evento psicológico anormal que ocorre durante o sono e na transição sono–vigília (aquele momento quando se inicia o despertar). Faz parte dos Transtornos Alimentares Não Especificados (Tane) e tem como característica o aumento do consumo alimentar após as 22h.

Na maioria das vezes, acomete pessoas com hábitos alimentares normais durante o dia, que podem ou não ser obesas. Estudos sugerem que esta síndrome pode ser desencadeada pelo estresse e está ligada a outro distúrbio psíquico, como a depressão, e que seus sintomas tendem a desaparecer quando os problemas são resolvidos ou atenuados.

O que acontece se não comerem?

Não conseguem dormir, o que gera mais ansiedade, logo, insônia. Indivíduos com SAN apresentam sono de pior qualidade e menos eficiente, além de um aumento no número de despertares no meio da noite.

Diferente do que se pensa, a maioria acorda para comer de forma consciente (não é sonambulismo). E isso não é um processo rápido, geralmente a pessoa passa muito tempo acordada comendo. O que pode levar a outro problema grave – a obesidade –, já que o tipo de alimento consumido é sempre hipercalórico.

Características físicas

Quando dormimos, liberamos dois tipos de substâncias – o que podemos chamar de padrão cíclico de secreção –, a melatonina (responsável pelo início e pela manutenção do sono) e a lepitina (que dá a sensação de saciedade). Pessoas com distúrbios alimentares noturnos apresentam níveis menores destas substâncias e um aumento considerável de grelina (responsável pela sensação de fome).

Atualmente, ainda não foram descobertos os principais fatores causadores da SAN. Predisposição genética, estresse de diversas ordens e alterações dos moduladores do sono, do apetite e de neurotransmissores cerebrais são hipóteses especuladas como causas da síndrome.

Em 2008 foram estabelecidos os principais critérios da Síndrome Alimentar Noturna:

  • Insônia / transtorno do sono
  • Anorexia matinal
  • Mudanças bruscas de humor / irritabilidade
  • Estresse
  • Depressão
  • Ansiedade
  • Ingestão de mais de 50% das calorias diárias necessárias consumidas à noite.

Cenário atual

No Brasil, ainda não temos estudos epidemiológicos sobre a Síndrome Alimentar Noturna, que afeta 1,5% da população americana – foram relatados casos principalmente em pessoas que têm jornadas de trabalho noturnas. E este número cresce bastante na população de obesos, variando entre 16% e 20%.

Por ser pouco divulgada, a síndrome ainda é encarada de forma errada e, no longo prazo, trás problemas graves à saúde. Além do ganho de peso, podem acontecer casos de hipertensão, diabetes, dislipidemia (presença de níveis elevados ou anormais de lipídios no sangue), e até intoxicação alimentar. Contudo, o que mais incomoda é a péssima qualidade de vida em decorrência de várias noites mal dormidas.

"Geralmente, indivíduos com SAN ficam envergonhados, por acharem que esse tipo de atitude é simplesmente falta de força de vontade e não procuram tratamento", explica a psiquiatra do Einstein, Dra. Mara Fernandes Maranhão.

Como saber se tenho SAN?

O diagnóstico deve ser feito de duas formas:

  • avaliação neurofisiológica – polissonografia (exame no qual um polígrafo avalia o padrão de sono, que é monitorado quanto à atividade elétrica cerebral, aos movimentos corporais e às atividades respiratórias e cardíacas).
  • avaliação psiquiátrica – análise de outros distúrbios associados.

Tipos de tratamento

Por se tratar de um problema ainda em estudo, sem critérios diagnósticos bem definidos, o tratamento não está completamente estruturado. Contudo, algumas técnicas medicamentosas e comportamentais estão trazendo bons resultados. Relatos de sucesso sobre a suplementação de melatonina em forma de comprimido associada ou não a antidepressivos têm sido feitos constantemente.

Fique atento e cuide-se

É importante que o indivíduo que queira se livrar dessa compulsão mude alguns de seus hábitos e passe a ter uma vida mais regrada.

  • Se você perceber alguns desses sintomas, é melhor procurar ajuda médica para uma avaliação correta.
  • Alimente-se de forma saudável, sem priorizar os carboidratos refinados (arroz e açúcar, por exemplo).
  • Faça refeições durante o dia, de forma regular e com horários preestabelecidos.
  • Exercite-se. Atividade física regularmente, no mínimo três vezes por semana, e de preferência pela manhã, ajuda bastante.
  • Reduza a ingestão de bebida alcoólica durante a noite. Diferente do que muitos dizem, tomar um pilequinho para dormir mais rápido é pura mentira. O álcool altera a arquitetura do sono.


Fonte: Dra. Mara Fernandes Maranhão, psiquiatra

Publicada em dez/2010


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