As infecções hospitalares afetam milhões de pacientes em todo o mundo, apesar de as causas e os métodos de prevenção serem bem conhecidos.
Contrair uma infecção durante a internação hospitalar pode parecer absurdo em uma época de tantos avanços na medicina, mas é mais comum do que se imagina. Só nos Estados Unidos, segundo estimativas dos Centros de Prevenção de Controle de Doenças, de 5% a 10% dos pacientes internados desenvolvem alguma infecção associada ao atendimento. São 2 milhões de casos por ano, 100 mil dos quais resultam em morte.
Outras consequências são o aumento do tempo de internação, as sequelas físicas e o afastamento do trabalho, além do ônus financeiro. Estudos estimam entre US$ 28,4 a US$ 33,8 bilhões os custos diretos gerados pela infecção hospitalar nos Estados Unidos. Lá, desde 2008, o Medicare, programa público de saúde que atende mais de 40 milhões de idosos e pessoas com deficiência, já não reembolsa complicações decorrentes da hospitalização. Mas, de uma forma ou de outra, em qualquer país, todos pagam essa conta – hospitais, pacientes, governo e operadoras de planos de saúde.
Embora o controle dessas infecções seja perseguido, até há pouco tempo, elas eram vistas por médicos e administradores de hospitais como inevitáveis, já que são uma consequência natural da assistência em casos complexos e do aumento da expectativa de vida, que elevou o número de pacientes idosos com doenças mais graves, o que significa tratamentos que requerem múltiplos recursos e equipamentos, ultrapassando a linha natural de defesa do corpo.
A posição das instituições comprometidas com a segurança do paciente é radical: a meta é eliminar as infecções hospitalares
Hoje, a posição das instituições comprometidas com a segurança do paciente é radical: a meta é eliminar as infecções hospitalares. Essa, contudo, não é uma jornada simples. Além de reforçar o número e a qualificação de profissionais dedicados ao controle das infecções – o que comprovadamente contribui para reduzir as taxas –, há outros desafios, como a maior resistência das bactérias aos antibióticos, em grande parte devido ao uso indiscriminado (e muitas vezes desnecessário) desses medicamentos. Mais de 70% dos agentes patogênicos dos hospitais americanos desenvolveram resistência a pelo menos um antibiótico.
Porém, o principal campo da batalha contra as infecções hospitalares envolve mudanças de comportamento e de processos e procedimentos, inspiradas nas melhores práticas baseadas em casos de sucesso.
As principais causas da infecção derivam de fatores de risco bem conhecidos: falhas humanas e inadequação de procedimentos que funcionem como barreiras para evitar a exposição do paciente ao risco. Da inserção de agulhas na veia até a sala de cirurgia, ocorrem falhas que vão da higienização insuficiente até questões relacionadas com o uso de equipamentos e antissepsia da área a ser operada. As infecções mais comuns são as do trato urinário e do sítio cirúrgico (local do corpo que passa pela cirurgia). Em seguida, vêm as infecções pulmonares, decorrentes de ventilação mecânica, e as da corrente sanguínea, provocadas pelo uso de cateter na veia para administração de soro e medicamentos.
A prevenção é simples. Um exemplo é a higienização das mãos antes, durante e depois de cada procedimento, mesmo que seja uma rotineira visita ao quarto do paciente. Vários estudos feitos nos Estados Unidos apontam que apenas 40% dos profissionais fazem isso da maneira correta.
Há muitas outras práticas recomendadas, como o uso do maior número possível de barreiras estéreis quando se coloca um cateter na veia, a administração de antibióticos antes de uma cirurgia e a aspiração de secreções para a prevenção de pneumonia, quando o paciente é submetido à ventilação mecânica.
Como fazer com que essas práticas integrem a rotina do hospital e de seus profissionais? Implantando procedimentos rigorosos, promovendo a mudança de comportamento em várias áreas, capacitando pessoas e adotando mecanismos para controlar o cumprimento dessas regras. Instituições hospitalares de primeira linha têm estabelecido o objetivo de Tolerância Zero, ou seja, procuram criar uma cultura em que nenhuma dessas regras de prevenção deixe de ser obedecida. Além disso, têm buscado engajar todos os níveis da organização nessa batalha – dos executivos, passando por médicos e enfermeiros até as equipes de apoio. Familiares e pacientes também são incluídos no esforço de prevenção, com medidas educativas e de esclarecimento sobre práticas de higiene, inclusive estimulando observar se elas estão sendo cumpridas pelos profissionais envolvidos no atendimento.
Tão essencial quanto ter um programa de controle da infecção hospitalar é monitorar o seu desempenho. Hospitais comprometidos com a excelência coletam e acompanham rigorosamente seus indicadores e, em uma postura ética e transparente, levam ao conhecimento do público. Além disso, reportam os dados para os órgãos oficiais e entidades do setor e comparam seu desempenho com instituições de referência, inclusive do exterior, com o objetivo de evoluir permanentemente. Um bom caminho para minimizar riscos é conhecer a instituição que vai tratar de sua saúde, informar-se sobre o que ela tem feito para eliminar a infecção hospitalar. Afinal, o paciente é a principal vítima dessas infecções e tem todo o direito a informações que lhe permitam fazer a melhor escolha, optando pela tolerância zero em relação a esse problema.
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