As arritmias podem sinalizar problemas cardíacos graves. Novas tecnologias permitem que esses distúrbios sejam detectados e tratados a tempo.
O sistema elétrico do coração regula a frequência cardíaca conforme a necessidade de oxigenação do organismo: na maioria dos indivíduos, os batimentos giram em torno de 60 a 80 por minuto, podendo chegar acima de 100 nas atividades habituais ou ficar abaixo de 60 em repouso. Alterações nesse sistema fazem o coração bater em ritmo acelerado (taquicardia) ou lento demais (bradicardia). São as chamadas arritmias. Nem sempre elas têm maiores consequências, mas há casos em que podem representar um indício de doenças muito graves. Portanto, a sensação de que o coração perdeu o ritmo é um sintoma que não deve ser ignorado.
Há vários tipos de arritmias. Elas podem ter origem na parte superior do coração (átrios ou supraventriculares) ou nas câmaras inferiores (ventrículos). Dentre as arritmias supraventriculares, um tipo que merece atenção é a fibrilação atrial, que afeta parte considerável da população idosa. No Brasil, aproximadamente 1,5 milhão de pessoas sofrem da doença, que atinge 5% das pessoas com mais 69 anos. Acima dos 80 anos, a incidência chega a 8%, segundo dados das Diretrizes Brasileiras de Fibrilação Atrial da Sociedade Brasileira de Cardiologia. A fibrilação atrial pode causar fadiga, palpitações e desmaios. A consequência mais grave é a formação de coágulos no coração, que podem provocar um acidente vascular cerebral (AVC).
Nos ventrículos, a arritmia mais comum é a extra-sístole, batida precoce que o paciente percebe como uma batida a mais no coração. Algumas vezes, a extra-sístole evolui para quadros que requerem atendimento emergencial, a exemplo da taquicardia ventricular e do flutter ventricular – alteração no ciclo de freqüência cardíaca. E, nos casos extremos, chega à fibrilação ventricular, uma das principais causas de parada cardíaca e morte súbita no mundo. Cerca de 90% desses casos poderiam ser evitados se diagnosticados a tempo.
Investigação criteriosa
“A criação de Centros de Arritmia Cardíaca é uma tendência mundial. Tais centros contam com a experiência de médicos especialistas em arritmias cardíacas – os eletrofisiologistas – e disponibilizam tecnologia de ponta com o objetivo de agilizar o diagnóstico e oferecer o melhor tratamento para cada caso”, explica a Dra Márcia Makdisse, Gerente do Centro de Cardiologia do Hospital Israelita Albert Einstein.
É frequente que o paciente com arritmia não tenha um distúrbio grave no ritmo do coração e, sim, sofra de ansiedade ou estresse. Mas afastar a preocupação faz toda a diferença
“É frequente que o paciente com arritmia não tenha um distúrbio grave no ritmo do coração e, sim, sofra de ansiedade ou estresse. Mas afastar a preocupação faz toda a diferença”, observa a Dra. Fátima Cintra, cardiologista clínica e chefe do Centro de Arritmia Cardíaca do Hospital Israelita Albert Einstein. “Por outro lado, há o indivíduo que chega ao consultório dizendo estar ótimo e esconde uma arritmia preocupante”, acrescenta a médica.
A Dra. Denise Hachul, cardiologista clínica do mesmo setor, concorda. “Precisamos entender se existe alguma doença cardíaca associada à arritmia que possa gerar riscos mais graves, como o de uma parada cardíaca”, diz ela, ressaltando, ainda, a importância de se fazer uma avaliação clínica completa no paciente. “A regularidade das batidas do coração pode ser alterada pelo uso de medicamentos ou males como disfunção de tiróide, anemia, desidratação e infecções. A consulta precisa de muita conversa para se chegar ao diagnóstico”, explica.
Identificar o tipo e a origem da arritmia, portanto, é fundamental para determinar o grau de risco e os procedimentos mais eficazes para a prevenção de complicações. Para isso, a cardiologia dispõe de uma série de recursos de última geração. Mesmo exames consagrados têm passado por constantes aprimoramentos. O Holter – ou eletrocardiograma dinâmico –, que registra o batimento cardíaco do paciente em suas atividades cotidianas, 24 horas por dia, é hoje do tamanho de um celular. A versão mais moderna do eletrocardiograma dinâmico é o Web Loop Recorder, capaz de transmitir eletrocardiogramas por meio da internet.
Nem sempre, contudo, é possível identificar o problema por meio de exames não invasivos. Nesses casos, a opção é o estudo eletrofisiológico. Por meio de incisões na virilha são introduzidos cateteres com eletrodos, colocados em posições estratégicas do coração para possibilitar seu mapeamento elétrico. “O exame revela a localização do foco de origem da arritmia. Conseguimos ver se o problema situa-se nos ventrículos ou átrios ou se há feixes anômalos. A localização nos ventrículos indica situação mais grave, pois essas câmaras são responsáveis pela pressão e difusão do sangue para todos os órgãos, incluindo o cérebro”, esclarece o Dr. Mauricio Scanavacca, supervisor do Laboratório de Eletrofisiologia do Incor e Eletrofisiologista do Centro de Arritmia Cardíaca do Hospital Israelita Albert Einstein.
Com os sistemas mais atuais de estudo fisiológico, o eletrofisiologista é guiado por uma espécie de GPS: à medida que o cateter toca os tecidos, o computador desenha virtualmente o coração, fazendo o mapeamento eletro-anatômico. Esse processo é feito sob sedação profunda e permite alta no dia seguinte.
Avanços no tratamento
Quando o problema é localizado, há vários recursos para o tratamento das arritmias e a prevenção de episódios mais graves. O tratamento pode envolver o uso de medicamentos, mudanças no estilo de vida e, em alguns casos, a realização da ablação por emissão de calor (radiofreqüência), em que cateteres introduzidos no coração fazem cauterizações para corrigir ou atenuar arritmias. “A técnica é um sucesso na maioria dos casos. Funciona com a máxima precisão, dispensando a necessidade de grandes incisões dentro do coração”, comenta o Dr. Angelo Amato de Paola, chefe do Departamento de Medicina da Escola Paulista de Medicina e eletrofisiologista do Centro de Arritmia Cardíaca do Hospital Israelita Albert Einstein.
A fibrilação atrial acomete um alto percentual da população com mais de 65 anos e provoca um quarto dos acidentes vasculares cerebrais
A ablação é mais eficaz do que o tratamento com remédios em pacientes com fibrilação atrial que não respondem à medicação. É o que mostra um estudo realizado entre 2004 e 2009 em 19 instituições de referência em cardiologia, incluindo a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Loyola University Medical Center, de Illinois (EUA), e publicado em janeiro de 2010 no The Journal of the American Medical Association. “Ele mostrou que o sucesso da ablação gira em torno de 70%, contra 20% dos casos tratados com medicamentos”, informa o Dr. Ângelo, responsável pela pesquisa na Unifesp.
“A fibrilação atrial acomete um alto percentual da população com mais de 65 anos e provoca um quarto dos acidentes vasculares cerebrais. E a ablação pode ajudar a pessoa com essa doença a viver mais e com maior qualidade de vida.”, lembra o Dr. Claudio Cirenza, professor de cardiologia clínica na Escola Paulista de Medicina e eletrofisiologista do Centro de Arritmia Cardíaca do Hospital Israelita Albert Einstein. O AVC é uma das principais causas de morte no Brasil e a mais importante causa de incapacitação de pessoas no mundo.
“A relação entre a fibrilação atrial e o AVC acontece porque, quando o coração bate desordenadamente e de forma acelerada, como no caso da fibrilação, aumenta a chance de formação de coágulos na auriculeta – um apêndice do coração, sem função, que possui uma cavidade que lembra um dedo de luva. Os coágulos podem ser levados a qualquer parte do corpo, inclusive ao cérebro, provocando o AVC”, afirma o Dr. Eduardo Mesquita de Oliveira, cardiologista clínico do Hospital Israelita Albert Einstein.
“A mais nova alternativa, nesses casos, é o fechamento percutâneo da auriculeta por meio de um dispositivo em formato de guarda-chuva, inserido por cateter: o Amplatzer Cardiac Plug (ACP). “A técnica começou a ser usada recentemente no Brasil. Os estudos clínicos demonstram resultados equivalentes aos dos anticoagulantes orais na prevenção de fenômenos trombo-embólicos”, explica o Dr. Fabio Sandoli de Brito Jr, cardiologista intervencionista do Hospital Israelita Albert Einstein.
Doença silenciosa
A fibrilação atrial é mais comum do que se imagina e nem sempre é percebida pelo paciente. No ano passado, a Unifesp analisou centenas de milhares de eletrocardiogramas feitos pelas unidades de Assistência Médica Ambulatorial da prefeitura da cidade de São Paulo e identificou que 2% deles apresentavam o problema. Em uma amostra aleatória de 100 entrevistas, descobriu-se que a maioria dos doentes desconhecia ter arritmia e tampouco tomava anticoagulantes; 20% deles apresentavam frequência cardíaca alarmante, de 120 batidas por minuto.
81,6% dos pacientes com fibrilação atrial têm distúrbios respiratórios de sono, como apneia
Além da possibilidade de ter relação com AVC, a doença também pode estar ligada a outras enfermidades. Um artigo publicado na revista Sleep Medicine, com base em dados levantados pela Unifesp entre 2006 e 2007, revelou que 81,6% dos pacientes com fibrilação atrial têm distúrbios respiratórios de sono, como apneia. “Ao tratar desse mal, a pessoa tem chances de diminuir a arritmia”, afirma a Dra. Fátima Cintra
A fribrilação ventricular pode afetar ambos os ventrículos (direito e esquerdo), impedindo a contração muscular e o fluxo sistêmico, levando à parada cardíaca. Pode ocorrer em pessoas de qualquer idade e, muitas vezes, se manifesta em jovens e esportistas. Nesses casos, o atendimento com desfibrilador externo precisa ser imediato, para evitar lesões neurológicas irreversíveis.
Estão mais sujeitos a eventos súbitos de arritmia pessoas que já tiveram parada cardíaca ou com histórico familiar de morte súbita e função cardíaca comprometida por anormalidades estruturais do coração.
Salvação sob a pele
Quem apresenta risco acentuado de taquicardia deve ser submetido ao implante de desfibriladores automáticos. Sob a pele, esses aparelhos fazem a leitura do ritmo cardíaco, são programados para corrigir a pulsação nas ocorrências de taquicardia e, em casos extremos, dão choques para trazer o ritmo do coração à normalidade.
Para pacientes com bradicardias persistentes, a solução pode ser o implante de marcapassos, dispositivos que detectam as falhas do ritmo cardíaco e emitem impulsos elétricos para corrigi-las. São aparelhos de pequeno porte, implantados embaixo da pele e que não comprometem em nada o estilo de vida do paciente.
Tanto o marcapasso quanto o desfibrilador implantável tornaram-se ainda mais eficazes com o sistema de telemonitorização do doente. Ele registra as ocorrências do ritmo cardíaco, como pulso, arritmias e choques disparados e, em horários agendados, envia as informações ao centro médico. Isso é possível porque esses aparelhos são dotados de um microdispositivo para transmissão de sinais pela internet, usando a telefonia celular. Se os dados acusarem problemas, o médico entra em contato com o paciente e solicita uma visita. “O sistema permite um monitoramento mais adequado do paciente. Outra vantagem é que conseguimos regular o aparelho de forma a evitar choques inapropriados por erro de detecção”, observa a Dra. Fátima Cintra.
Cirurgias pouco invasivas e tratamentos híbridos
Na correção de arritmias, nem sempre o paciente está livre de cirurgia. Mas, hoje, muitos procedimentos cardíacos podem ser realizados sem a necessidade de abrir o tórax, por meio de cirurgias minimamente invasivas, reduzindo o tempo de recuperação e melhorando a qualidade de vida do paciente. No Brasil, as cirurgias cardíacas minimamente invasivas começaram a ser feitas pelo Dr. Robinson Poffo, coordenador do Centro de Cirurgia Cardíaca Minimamente Invasiva e Robótica do Hospital Israelita Albert Einstein. Ele já realizou mais de uma centena de cirurgias com essa técnica.
A cirurgia cardíaca minimamente invasiva já é uma realidade no Brasil, demonstrando excelentes resultados estéticos e funcionais
Um estudo publicado em 2009 na Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular, compreendendo 102 pacientes submetidos à cirurgia cardíaca minimamente invasiva entre 2006 e 2008, mostrou excelentes resultados. Deste total, doze cirurgias foram para correção cirúrgica da fibrilação atrial por radiofreqüência. “É um procedimento seguro, eficaz e com baixos índices de mortalidade. A cirurgia cardíaca minimamente invasiva já é uma realidade no Brasil, demonstrando excelentes resultados estéticos e funcionais”, diz o Dr. Robinson Poffo.
A grande novidade nesse campo é o uso da robótica, uma tecnologia introduzida em 2010 na América Latina. Por meio de um console, o cirurgião maneja articulações mecânicas (“braços”) para realizar a cirurgia. O equipamento traz maior destreza, precisão e segurança e possui um sistema de captação de imagens digital de altíssima resolução.
A cirurgia robótica pode ser associada à ablação por radiofreqüência (cateteres introduzidos no coração fazem cauterizações para corrigir ou atenuar arritmias) no tratamento da fibrilação arterial. É a chamada terapia híbrida, ainda incipiente em todo o mundo. “Ela já é usada no Brasil e é recomendada para tratamento da fibrilação atrial arterial em pacientes que não respondem às demais técnicas. Nesse procedimento, cirurgião e eletrofisiologista trabalham juntos: o primeiro faz mini-incisões externas no tórax e ablação na parte externa do coração e o outro cuida da ablação interna”, explica o Dr. Robinson Poffo, Coordenador do Centro de Cirurgia Cardíaca Minimamente Invasiva e Robótica do Hospital Israelita Albert Einstein.
Atenção em todas as idades
Em geral, os tratamentos das arritmias são complementares e costumam incluir o uso de medicamentos. As drogas disponíveis, contudo, podem provocar efeitos colaterais como náusea, vômito, outras arritmias, bloqueios, bradicardias, hiper ou hipotireoidismo, alterações hepáticas, depósito de cristais nas córneas e outros. “Na Europa e nos Estados Unidos, as sociedades de cardiologia estudam duas novas drogas que se propõem a diminuir esses efeitos. A tendência é que elas sejam aprovadas também no Brasil”, comenta o Dr. Eduardo Mesquita.
Ele é responsável pelo ambulatório de cardiologia infantil do Programa Einstein na Comunidade de Paraisópolis e afirma que, apesar de pouco freqüentes, as arritmias podem atingir fetos, lactentes e crianças de diferentes idades. Na infância, a doença não costuma trazer problemas mais graves e tende a desaparecer com o tempo.
Quando a arritmia se manifesta em fetos, a mãe recebe uma medicação que chega ao feto pelo cordão umbilical. Nos demais casos, a investigação e a ação terapêutica são similares à adotada em adultos: medicação, ablação por radiofreqüência e dispositivos implantáveis (desfibrilador e marcapasso). Os equipamentos mais modernos são adequados ao tamanho da criança e têm a capacidade de acompanhar seu crescimento.
São muitos os recursos para diagnóstico e tratamento das arritmias. O mais importante, porém, é não deixar qualquer sintoma passar despercebido. A sensação de que o coração perdeu o ritmo é sempre um sinal que precisa ser investigado.
Publicado em
25/03/2011
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