Minimamente invasivos, procedimentos intervencionistas guiados por imagem trazem grandes benefícios para os pacientes
O avanço da tecnologia tem promovido profundas transformações na aplicação dos métodos de imagem na medicina. Cada vez mais sofisticados e precisos, tomografias, ultrassonografias, ressonâncias magnéticas e equipamentos de raios X passaram a ser utilizados não apenas para exames, mas também para guiar procedimentos intervencionistas destinados tanto ao diagnóstico quanto ao tratamento das mais diversas patologias.
Muito mais simples e seguros, geralmente feitos em ambulatório ou com breve internação do paciente, procedimentos desse tipo são minimamente invasivos, realizados por via percutânea (através da pele), sem necessidade de grandes incisões. A grande maioria utiliza pequenos cateteres, agulhas finas ou probes (dispositivos eletrônicos pontiagudos). Orientado pela imagem, o médico guia os instrumentos até a área lesionada através de um vaso sanguineo ou diretamente a partir da pele, atravessando tecidos com mínimo traumatismo. A conduta a seguir depende de cada patologia e do objetivo da intervenção.
As biópsias (retirada de pequenas amostras de tecido com finalidade diagnóstica) estão entre os procedimentos em que a imagem intervencionista é amplamente utilizada, podendo ser realizados em ambiente extra-hospitalar. De acordo com o tipo da lesão, variam os recursos adotados: mamografia, ultrassonografia, ressonância magnética ou estereotaxia, método que usa um aparelho de orientação espacial e imagens de raios X, tomografia e/ou ressonância magnética para a localização das lesões.
Em alguns casos, como o da mamotomia guiada por estereotaxia (realizada quando há suspeita de câncer de mama), a imagem é obtida em tempo real, durante o procedimento. A paciente pode ser liberada logo após a conclusão do exame, e o orifício milimétrico pelo qual é introduzida a agulha de coleta do material torna-se imperceptível em poucas semanas.
As áreas de Cardiologia e Vascular estão entre as que mais têm se beneficiado dos procedimentos guiados por imagem. Os modernos angiógrafos (equipamentos capazes de estudar os vasos sanguineos por meio de imagens de raios X) permitem visualizar com detalhes muito precisos artérias e veias estreitadas ou obstruídas. Essas imagens norteiam o direcionamento de cateteres especiais (geralmente com um pequeno balão na ponta) até o local da lesão, dilatando o ponto obstruído. Em alguns casos, é feita, no mesmo procedimento, a colocação de um stent, dispositivo capaz de manter aberto o vaso sanguíneo, minimizando o risco de novas obstruções no local. O aprimoramento dessas técnicas tem viabilizado inclusive a realização de procedimentos mais complexos de maneira muito menos invasiva. Um exemplo é o implante de válvulas cardíacas artificiais, até recentemente só possível com a abertura do tórax.
Esses procedimentos atingem exatamente o local da lesão, são seguros, reduzem o desconforto e o tempo de recuperação do paciente
A angiografia também é usada para guiar a embolização (interrupção do aporte sanguíneo) de tumores diversos. Em situações benignas, como no tratamento endovascular dos miomas uterinos, tal procedimento é capaz de preservar o útero da paciente e a função reprodutiva, reduzindo drasticamente sintomas como sangramento e cólicas. Em Neurologia, a imagem é a aliada em embolização de aneurismas cerebrais e tumores diversos; na Oncologia, em procedimentos de quimioembolização (aplicação de quimioterapia diretamente no interior dos tumores, minimizando efeitos colaterais no restante do organismo) e ablação (destruição focal de tumores por energia térmica, poupando tecidos saudáveis ao redor).
Já a utilização conjunta de ultrassonografia, tomografia e raios X permite o esvaziamento de infecções localizadas (drenagens de coleções) e desobstruções de vias biliares ou do fluxo urinário, evitando cirurgias de maior porte ou complexidade.
A imensa gama de possibilidades de intervenções guiadas por imagem faz com que esta seja atualmente uma das áreas da medicina na qual se registra maior índice de crescimento. Nos Estados Unidos, são realizados anualmente cerca de 26 milhões de procedimentos dessa natureza. No Brasil eles também ganham espaço, embora não haja estatísticas a respeito.
Além do aperfeiçoamento dos equipamentos de imagem, contribui para esse impulso o aprimoramento de agulhas, cânulas e cateteres utilizados, tornando-se cada vez mais finos e precisos. Com a alta resolutividade das imagens e insumos mais adequados, aumenta o grau de efetividade dos procedimentos: atingem exatamente o local da lesão, são seguros, reduzem o desconforto e o tempo de recuperação do paciente e têm menor custo. A portabilidade dos equipamentos também possibilita que, em muitos casos, as intervenções sejam realizadas à beira do leito de UTI, sem necessidade de deslocamento ao centro cirúrgico.
Os benefícios da imagem intervencionista, aliados à maior disponibilidade das tecnologias e equipamentos, fazem prever que se torne uma técnica cada vez mais desenvolvida e utilizada. Como qualquer procedimento, deve ser feito à luz de critérios médicos. Mas trata-se de mais uma opção no arsenal de possibilidades hoje à disposição dos pacientes, que vem se somar e complementar as alternativas cirúrgicas convencionais.