Especialistas de diferentes áreas trabalham juntos no tratamento do câncer, trazendo bem-estar e qualidade de vida aos pacientes
A descoberta e o tratamento do câncer levam, por vezes, as pessoas a um estado de fragilidade, provocando mudanças físicas, emocionais e na rotina diária. Além disso, não é raro que o indivíduo tenha de ir de consultório em consultório para confirmar a doença e saber como ela pode ser tratada. Uma nova abordagem, mais humanizada e multidisciplinar, procura não apenas acabar com essa peregrinação, mas sobretudo melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Adotado em algumas instituições de saúde no Brasil, ela desponta como uma forte tendência na área de oncologia, em todo o mundo.
Trata-se de um novo jeito de olhar o paciente, que vai muito além da preocupação com a doença. O foco é o indivíduo, seu bem-estar físico, psicológico, emocional e espiritual. Para que isso aconteça, um grande número de especialistas – oncologista clínico, hematologista, cirurgião, radioterapeuta e fisioterapeuta, entre outros – trabalham de modo integrado para suprir as diferentes necessidades do paciente com câncer.
“O conhecimento cresceu de tal forma que não é mais possível que um único profissional domine a informação. A medicina deverá ser cada vez mais exercida por uma equipe, sob a coordenação de um médico e dentro de uma visão humanizada de cuidado com o paciente”, afirma o Dr. Nelson Hamerschlak, coordenador do Programa de Oncologia, Hematologia e Transplante de Medula Óssea do Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE).
Segundo ele, a evolução tecnológica observada nas últimas duas décadas impactou a relação médico-paciente. “Chegou-se ao exagero de conversar pouco durante a consulta, achando que as máquinas e os laboratórios poderiam dar conta das questões não resolvidas no exame clínico. A tecnologia é fundamental, mas não é suficiente. A cura envolve outros aspectos”, ressalta o Dr. Nelson.
Visão holística
O conhecimento cresceu de tal forma que não é mais possível que um único profissional domine a informação. A medicina deverá ser cada vez mais exercida por uma equipe
O princípio é o de que, quanto melhor o estado geral do indivíduo, mais efetivo o tratamento. Por isso, os mais avançados serviços de oncologia oferecem um atendimento global que, além dos serviços convencionais, envolve enfermagem especializada, psicologia, nutrição, dermatologia, odontologia e terapias complementares, como massagem, acupuntura e meditação, por exemplo, que fazem parte da chamada medicina integrativa.
“Essas medidas são cada vez mais indicadas para ajudar o paciente a recuperar o equilíbrio, muitas vezes abalado pelo sofrimento com a descoberta e o tratamento do câncer, contribuindo para que ele supere essa fase de maneira positiva”, explica o Dr. Antonio Luiz de Vasconcellos Macedo, diretor da área de Cirurgias Minimamente Invasivas e Robóticas do Einstein.
Ação compartilhada
Dentro dessa filosofia, é imprescindível alinhar a comunicação entre todos os profissionais engajados no tratamento. Para isso, as instituições de saúde que adotam essa linha de atuação recorrem a métodos que facilitem a troca de informações e o trabalho colaborativo entre as equipes.
Nos hospitais de ponta, um exemplo são as reuniões periódicas de grupos formados para discutir cada tipo de tumor – próstata, mama, pulmão, aparelho digestivo, cabeça e pescoço, entre outros. Oncologistas clínicos especializados nessas áreas, cirurgiões, radioterapeutas, psicólogos e enfermeiros se reúnem para conversar sobre os casos em andamento.
O que se busca é o estado da arte da medicina individualizada
“O que se busca é o estado da arte da medicina individualizada, que leva em conta diagnóstico, dimensão da doença, quadro clínico, detalhes genéticos e outras peculiaridades para customizar a abordagem a cada paciente”, conta o Dr. Eduardo Weltman, coordenador do Serviço de Radioterapia do Einstein. “Assim, é possível obter os melhores resultados, de modo que o indivíduo possa retornar às suas atividades com o mínimo possível de traumas e sequelas”.
Vários médicos em uma só consulta
Outra iniciativa, ainda incipiente no Brasil, são as clínicas multidisciplinares de oncologia: em uma única consulta, o paciente fala com diferentes especialistas, evitando repetir sua história várias vezes e obtendo informações sobre as várias dimensões do problema. Num caso de diagnóstico recente de câncer de próstata, por exemplo, ele pode ser examinado, conjuntamente, pelo urologista, oncologista clínico e radioterapeuta.
“Esse conceito é muito comum nos Estados Unidos, começa a ser usado no Brasil e demonstra ser fantástico”, comenta o Dr. Óren Smaletz, coordenador da área de Pesquisa Clínica em Oncologia do Einstein. Um dos ganhos importantes é a redução de riscos, diz ele, citando como exemplo um caso de câncer de próstata. “A cirurgia de próstata pode ter efeitos adversos importantes, como incontinência urinária, perda de libido e impotência. É uma decisão complexa, e o ideal é que ela não seja mais tomada isoladamente por um médico. É preciso envolver vários profissionais e o próprio paciente.”
O Dr. Antonio Macedo conta que os cânceres do aparelho digestivo são tratados, muitas vezes, através de abordagem multidisciplinar. No caso dos tumores do reto baixo, realiza-se quimioterapia e radioterapia e espera-se doze semanas. “Nesse período, o tumor regride de tamanho, permitindo o uso da técnica de cirurgia robótica, com grande precisão, sem incisão abdominal e com eficiência oncológica semelhante à da cirurgia aberta”. Nos tumores do esôfago, a cirurgia com o robô evita a abertura do tórax, tornando o procedimento menos invasivo para o paciente. Em casos mais simples, a cirurgia do pâncreas pode ser realizada com robô, sem incisão abdominal; nos mais complexos, costuma-se adotar a quimioterapia e a radioterapia pré-operatória, seguida de cirurgia radical, com ressecção e substituição dos vasos envolvidos.
Esse conceito é muito comum nos Estados Unidos, começa a ser usado no Brasil e demonstra ser fantástico
O melhor, na hora certa
Outro exemplo é dado pelo Dr. Nelson Hamerschlak. Em sua especialidade, a hematologia, que trata cânceres do sangue (leucemias e linfomas), a primeira providência quando um paciente chega ao consultório é certificar-se do diagnóstico, pois há diversos tipos de leucemias e linfomas. “Isso exige uma enorme retaguarda de laboratório, com patologistas experientes e tecnologias de última geração”.
Na hematologia há, ainda, uma forte integração entre o médico e as equipes de farmácia e saúde bucal. “Os pacientes precisam de muitos medicamentos. É imperativo conhecer as interações entre eles e ter à disposição profissionais de saúde bucal, porque muitos quimioterápicos causam problemas à mucosa”, cita. Essa atuação colaborativa das equipes é a maneira mais segura, segundo ele, de que estão sendo adotadas as medidas corretas, na hora mais propícia.
Apoio psicológico e de enfermagem
No contexto da oncologia multidisciplinar e humanizada, ganha importância o apoio ao paciente de outros profissionais, como psicólogos e enfermeiros. Para Ana Merzel, coordenadora do serviço de Psicologia do Albert Einstein, a atividade do profissional de psicologia deve estar presente em todos os momentos – do diagnóstico à internação, quimioterapia ou radioterapia. “O trabalho auxilia o paciente a entrar em contato com a nova realidade e a enfrentar melhor o tratamento e a doença”.
As crianças submetidas à radioterapia, segundo ela, demandam atenção adicional, porque a aplicação exige imobilidade. “O objetivo é evitar o uso anestésico, porque é sempre mais um procedimento”, explica. Ao mesmo tempo, há a preocupação com as famílias, que ficam fragilizadas nesses processos. “O câncer é uma doença que tem repercussão nas diferentes esferas da vida. É um momento em que as pessoas têm que reorganizar o trabalho e seus relacionamentos e necessitam de suporte para isso”, afirma Ana Merzel.
A enfermagem é outra área que atua no suporte ao paciente e aos familiares. “A oncologia envolve tratamentos de alta complexidade, que podem desencadear uma série de efeitos colaterais. A equipe de enfermagem especializada é capacitada para lidar com essas diferentes situações”, comenta Ana Fernanda Centrone, coordenadora assistencial do Centro de Oncologia do Einstein.
Segundo ela, a atuação desses profissionais, como parte de uma equipe multidisciplinar, faz toda a diferença para a qualidade de vida do paciente. “Se ele tiver esse respaldo, percebe os sintomas mais precocemente, torna-se mais pró-ativo no cuidado e pode tocar a vida normalmente”, afirma Ana Fernanda.
O câncer é uma doença que tem repercussão nas diferentes esferas da vida. É um momento em que as pessoas têm que reorganizar o trabalho e seus relacionamentos e necessitam de suporte para isso
Medicina integrativa
Quando estão diante de doenças graves, as pessoas costumam buscar forças na espiritualidade e em terapias para viver melhor. O Dr. Paulo de Tarso Lima, um dos pioneiros na medicina integrativa no Brasil, defende o acolhimento dessas demandas dos pacientes, cuidadores e familiares. “É essencial que eles tenham a percepção de estarem sendo ativos em relação ao tratamento e recebam informações que sustentem o autocuidado e a conexão com o processo inato de cura e saúde”, reflete.
Estima-se que até 80% dos pacientes recorram à meditação, acupuntura, reiki, yoga, fitoterapia e outras práticas. Elas podem ajudar, sim. Mas nem tudo é permitido. O enfoque é complementar o tratamento convencional, nunca substituí-lo. Além disso, há o risco de efeitos adversos ou interações negativas com os medicamentos tradicionais. Também na medicina integrativa, um critério básico são as evidências científicas.
Estudos realizados em diferentes países demonstram, por exemplo, que a meditação auxilia na redução da ansiedade; massagens, no combate ao estresse; acupuntura, no controle de náuseas e vômitos associados à quimioterapia. São práticas que têm por base Medicinas Tradicionais e estão alinhadas à Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares do Sistema Único de Saúde do Brasil. “Elas têm o papel de contribuir para que paciente e cuidadores se reconectem com o momento presente. Temos uma vasta literatura que sustenta que esse processo ajuda no controle de sintomas e na promoção da saúde”, diz o Dr. Paulo de Tarso Lima.
O Dr. Óren Smaletz cita um estudo randomizado, publicado em agosto de 2010 no The New England of Medicine, uma das mais importantes publicações internacionais na área de medicina. O trabalho acompanhou mais de 150 pacientes com câncer de pulmão em estágio avançado que receberam diferentes modalidades de tratamento. Um grupo foi submetido apenas à quimioterapia convencional e o outro, a uma associação de quimioterapia e práticas integrativas. “Viu-se que os pacientes que estavam no segundo grupo viveram mais e melhor”, resume.
Estima-se que até 80% dos pacientes recorram à meditação, acupuntura, reiki, yoga, fitoterapia e outras práticas. Elas podem ajudar, sim. Mas nem tudo é permitido.
Incidência crescente
A importância da abordagem multidisciplinar e humanizada pode ser dimensionada pelo número de pessoas afetadas pelo câncer. No mundo, são registrados a cada ano cerca de 12 milhões de novos casos e 7 milhões de mortes em decorrência da doença. É o que revela o Globalcan, projeto global de mapeamento da incidência e mortalidade dos principais tipos de câncer. A iniciativa é desenvolvida pela Agência Internacional para Pesquisa de Câncer da Organização Mundial da Saúde (OMS). A OMS estima que a quantidade de pessoas diagnosticadas com câncer mais que dobrou nos últimos trinta anos. A tendência é de crescimento, principalmente, em decorrência do aumento e envelhecimento populacional.
No Brasil, são registrados aproximadamente 490 mil novos casos ao ano, de acordo com dados de 2010/2011 do Instituto Nacional do Câncer, ligado ao Ministério da Saúde. Próstata e pulmão, em homens, e mama e colo do útero, em mulheres, são os tipos de maior impacto na população do país. Em 2010, as estimativas apontavam 52 mil novos casos de câncer de próstata, 49 mil de mama, 28 mil de cólon e reto, 27 mil de pulmão, 21 mil de estômago e 18 mil de colo de útero.
O Dr. Macedo lembra que o aumento da incidência de câncer pode estar relacionado, também, a mudanças genéticas e ao estilo de vida moderno, marcado pelo estresse, falta de atividade física, dieta rica em açucares e aumento progressivo de peso da população. “O câncer de estomago e esôfago, por exemplo, cresceu seis vezes nos últimos dez anos. Do mesmo modo, tem aumentado a incidência de câncer do intestino, pâncreas e fígado”, observa.
Em síntese: as estatísticas da doença continuam a evoluir. Aliado aos avanços tecnológicos e novos recursos de diagnóstico e tratamento, o cuidado multidisciplinar e humanizado acolhe as necessidades de cada um, ajudando as pessoas com câncer a viver mais e melhor. Longe de ser uma moda brasileira, essa nova abordagem se desenvolve e ganha força em todo o mundo.
Publicado em
18/11/2011
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