Ter filhos é uma aspiração natural da maioria dos casais e a medicina pode ajudar quem tem problemas de infertilidade. Mas, quais são os limites técnicos e éticos?
Segundo a Organização Mundial da Saúde, de 8% a 15% dos casais em idade fértil têm dificuldades para gerar filhos. Parte superará o problema com o uso de medicamentos e tratamentos mais convencionais, mas cerca de 20% terá como única opção recorrer às técnicas de reprodução assistida. Conquistas da medicina contemporânea, elas têm ajudado um número crescente de pessoas a superar os limites da infertilidade – dos originados por causas genéticas e doenças até os relacionados com procedimentos como vasectomia e laqueadura. Mais recentemente, um perfil de paciente tem aumentado nas clínicas especializadas: mulheres mais maduras, que priorizaram a carreira e decidem ser mães depois dos 35 anos, quando os óvulos já passaram da fase áurea da fertilidade.
Basicamente, as técnicas de reprodução assistida abrangem a inseminação artificial, na qual a fecundação é induzida dentro do corpo feminino, e a fertilização in vitro, com fecundação e desenvolvimento inicial externo dos embriões. Procedimentos inovadores têm se multiplicado. Entre eles estão o congelamento de células reprodutivas e de embriões para posterior aproveitamento (há dois anos foi vencida a última barreira, com a técnica de congelamento de óvulos); o diagnóstico genético pré-implantacional, que possibilita identificar a probabilidade de doenças e o sexo do embrião antes que ele seja implantado; e as técnicas de sexagem, que permitem a seleção do sexo.
Tudo isso, porém, não faz da reprodução assistida a única solução. Há outros tratamentos para infertilidade – de medicamentos até cirurgias para, por exemplo, reverter uma vasectomia. E, vale lembrar, não há método infalível. A taxa média de sucesso da fertilização in vitro é de 35%. Após quatro tentativas, sobe para 78% a chance de gravidez, mas isso implica custos financeiros e emocionais para o casal. Além disso, é preciso considerar que o processo pode ser muito desgastante. A mulher que vai se submeter à fertilização in vitro terá de usar drogas para estimulação ovariana, fará vários ultrassons transvaginais, realizará a retirada dos óvulos por meio de um procedimento invasivo que requer anestesia e, se a fertilização for bem-sucedida, terá de tomar remédios à base de progesterona para ajudar a preparar o útero. E, depois da transferência do embrião, pode, em duas semanas, receber a notícia de que não engravidou.
É ético escolher o sexo do bebê? E comercializar óvulos, sêmen e embriões? Que destino dar aos embriões congelados e não usados?
Ainda assim, as novidades da ciência têm tornado mais efetiva a possibilidade de vencer a infertilidade. Ao mesmo tempo, desafiam conceitos culturais, morais e religiosos. É ético escolher o sexo do bebê? E comercializar óvulos, sêmen e embriões? Que destino dar aos embriões congelados e não usados?
São questões polêmicas, mas as fronteiras estão sendo delineadas. No Brasil, além de aspectos legais, como a proibição de comercialização de tecidos, órgãos e embriões, há práticas e limites bem-definidos pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Embriões excedentes devem ser congelados; não podem ser descartados ou destruídos, mas podem ser doados, inclusive para pesquisa. Práticas de eugenia (melhoria genética) são repudiadas. A sexagem, ou seleção de sexo – seja pela separação de espermatozóides masculinos (Y) ou femininos (X), ou pela identificação genética dos embriões por meio da biópsia de celular, descartando-se os indesejados –, só se justifica nos casos que visam à prevenção de doenças genéticas associadas ao sexo, como a hemofilia, passada de mãe para filho. A implantação de óvulos é limitada a até quatro por procedimento, a fim de minimizar gestações múltiplas e os riscos que representam para a mãe e os bebês.
Estabelecer essas regras e limites é fundamental. Afinal, , a reprodução assistida ajuda a criar a vida, mas, com todos os seus avanços e possibilidades, tem de ser praticada com respeito, segurança e dignidade.
Publicado em
06/08/2010
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